Câmara Legislativa aprova empréstimo de R$ 6,6 bilhões para socorrer BRB após prejuízos com Banco Master
Lidiane 11 de junho de 2026
Projeto autoriza Governo do Distrito Federal a contratar operação bilionária e gera debate sobre transparência, impacto fiscal e futuro das contas públicas
A Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) aprovou, na noite desta terça-feira (9), o projeto de lei que autoriza o Governo do Distrito Federal (GDF) a contratar um empréstimo de R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O objetivo da operação é reforçar a situação financeira do Banco de Brasília (BRB) após perdas bilionárias relacionadas a operações realizadas com o Banco Master entre 2024 e 2025.
A proposta, encaminhada pelo Poder Executivo e aprovada em regime de urgência, recebeu 11 votos favoráveis, nove contrários, uma abstenção e registrou três ausências.
Segundo o governo distrital, a medida integra um conjunto de ações destinadas a restabelecer e fortalecer as condições econômico-financeiras do banco estatal controlado pelo Distrito Federal.
Operação já havia sido homologada pelo STF
O projeto aprovado pela Câmara ratifica os termos do acordo firmado entre o GDF, o BRB, a União e o Banco Central.
A operação já havia sido homologada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) antes mesmo da conclusão da votação no Legislativo distrital, fato que gerou críticas de parlamentares da oposição e especialistas em finanças públicas.
As principais contestações envolvem a ausência de divulgação do balanço financeiro do BRB referente ao exercício de 2025, documento que deveria ter sido publicado até 31 de março deste ano.
Durante audiência pública realizada no Senado Federal, o presidente da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), senador Renan Calheiros (MDB-AL), questionou a falta de informações detalhadas sobre a situação financeira da instituição.
Segundo o parlamentar, ainda existem dúvidas sobre o tamanho efetivo das perdas registradas pelo banco e sobre os fundamentos utilizados para aprovação do plano de recuperação.
Projeto prevê garantias e medidas de ajuste fiscal
O texto aprovado estabelece as contragarantias que serão oferecidas pelo Distrito Federal para viabilizar a contratação do empréstimo.
Entre elas estão receitas provenientes dos Fundos de Participação dos Estados (FPE) e dos Municípios (FPM), importantes fontes de recursos utilizadas pelo governo para financiar despesas públicas.
Além disso, o acordo prevê a adoção de medidas voltadas ao controle dos gastos públicos, o que poderá limitar a expansão de despesas nos próximos anos.
Na prática, especialistas apontam que o compromisso pode reduzir a margem para realização de novos concursos públicos, reajustes salariais e ampliação de investimentos em diversas áreas da administração distrital.
O acordo também estabelece que eventuais valores recuperados futuramente em ações judiciais ou acordos relacionados às perdas do BRB deverão ser utilizados prioritariamente para amortizar a dívida contraída.
Sindicatos demonstram preocupação com impactos nos serviços públicos
Representantes de categorias do funcionalismo público manifestaram preocupação com os possíveis efeitos do acordo sobre as contas do Distrito Federal.
Entidades sindicais argumentam que a necessidade de cumprir as obrigações financeiras assumidas poderá pressionar o orçamento local, afetando investimentos em áreas como educação, saúde e segurança pública.
O Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro-DF), por exemplo, criticou o modelo adotado para o socorro financeiro ao banco e alertou para possíveis reflexos sobre os serviços públicos e as condições de trabalho dos servidores.
Perdas estimadas chegam a R$ 8,8 bilhões
Segundo informações apresentadas pelo presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, as perdas potenciais relacionadas às operações realizadas com o Banco Master podem alcançar R$ 8,8 bilhões.
O valor foi estimado após auditorias identificarem problemas em parte dos títulos adquiridos pela instituição.
De acordo com o levantamento, dos cerca de R$ 30 bilhões em ativos comprados do Banco Master, aproximadamente R$ 2,6 bilhões não possuem lastro considerado suficiente para garantir o ressarcimento dos valores investidos.
Outros R$ 6,2 bilhões seguem classificados como operações de elevado risco, o que elevou a preocupação em relação à saúde financeira do banco.
GDF também recorrerá à securitização de créditos
Além do empréstimo junto ao Fundo Garantidor de Créditos, o plano de recuperação financeira prevê a utilização da securitização da dívida ativa do Distrito Federal.
A estratégia consiste na antecipação de receitas futuras por meio da negociação de créditos tributários ainda não recebidos.
Segundo o presidente do BRB, a primeira etapa da operação já foi concluída e resultou no ingresso de aproximadamente R$ 1,17 bilhão nos cofres da instituição financeira.
Os recursos foram destinados à capitalização do banco e fazem parte de uma operação estruturada com participação do mercado financeiro.
Debate deve continuar nos próximos meses
A aprovação do projeto não encerra as discussões sobre o caso.
Parlamentares da oposição, entidades sindicais e especialistas em finanças públicas continuam cobrando maior transparência sobre a situação patrimonial do BRB, os detalhes das operações realizadas com o Banco Master e os impactos fiscais do acordo para o Distrito Federal.
Enquanto isso, o governo distrital e a direção do banco defendem que as medidas aprovadas são necessárias para preservar a estabilidade da instituição financeira e garantir a continuidade de suas operações.
Investigação começou depois de o BRB suspeitar de fraudes em empréstimos consignados envolvendo gerentes do banco e grupo criminoso
A Polícia Civil do Distrito Federal, por meio da DRCOR (Delegacia de Repressão à Corrupção), deflagrou nesta 5ª feira (28.mai.2026) a operação Crédito Corrompido. A ação investiga fraudes financeiras e crimes contra a administração pública cometidos com a participação de funcionários, gerentes e correspondentes bancários do BRB (Banco de Brasília).
Foram cumpridos 16 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal, em São Paulo e no Rio de Janeiro. A Justiça também determinou o bloqueio de mais de R$ 1 milhão em bens e valores, quantia que teria sido recebida como propina e lavada por meio de uma empresa de fachada.
A operação tem o apoio do MPDFT (Ministério Público do Distrito Federal e Territórios) e das polícias civis de São Paulo e do Rio de Janeiro. As investigações começaram em 2025, depois que o próprio BRB detectou as irregularidades e acionou a polícia.
Segundo a Polícia Civil, a organização criminosa era dividida em 5 núcleos: correspondentes bancários, intermediários, gerentes do BRB Varejo, gerentes do BRB Alta Renda e operadores financeiros.
O grupo atuava em duas frentes principais:
- empréstimos consignados (varejo): correspondentes bancários atraíam clientes inelegíveis, como professores e servidores temporários, pelas redes sociais. Eles falsificavam documentos e contracheques. Internamente, gerentes do BRB validavam os papéis. Os criminosos cobravam taxa de 30% sobre o valor liberado ou desviavam o dinheiro diretamente da conta da vítima;
- créditos milionários (alta renda): funcionários de escalão superior do banco liberavam grandes volumes de crédito sem critérios técnicos para operadores financeiros em troca de propina.
As buscas realizadas nesta 5ª feira (28.mai.2026) buscam consolidar o acervo de provas materiais contra os envolvidos. Os investigados responderão por crimes como peculato, corrupção ativa e passiva, estelionato contra a administração pública, lavagem de dinheiro e associação criminosa ou organização criminosa.
Se somadas, as penas máximas para as infrações podem chegar a 30 anos de prisão.
O Itaú Unibanco informou na 4ª feira (15.abr.2026) que uma de suas subsidiárias “celebrou instrumento por meio do qual se comprometeu a adquirir” ativos do BRB (Banco de Brasília).
“Não obstante, os valores envolvidos na referida transação são imateriais para a Companhia, de acordo com os seus critérios, razão pela qual tal transação não se qualifica como ‘fato relevante’ para o Itaú Unibanco para fins da legislação”, diz o comunicado, assinado pelo diretor de Relações com Investidores do banco, Gustavo Lopes Rodrigues.
No comunicado (íntegra – PDF – 212 kB), o Itaú não informou valores ou deu detalhes do acordo.
O banco divulgou a nota em resposta a questionamento feito pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários), acerca de notícia publicada pelo jornal Correio Braziliense.
Na reportagem, a publicação diz que o banqueiro André Esteves, do BTG, declarou em evento em São Paulo que estaria avaliando a aquisição de ativos do BRB e que Itaú Unibanco e o Bradesco “já negociaram com o BRB R$1 bilhão em carteiras de contratos de empréstimos concedidos pelos Estados e municípios com aval da União”.
Crise no BRB
O BRB enfrenta uma crise depois da compra de carteiras do Banco Master, operação que resultou em forte deterioração patrimonial. Segundo o banco, será necessário provisionar (reservar) cerca de R$ 8,8 bilhões. No entanto, uma auditoria forense independente falou na necessidade de R$ 13 bilhões.
A própria instituição financeira informou que os ativos adquiridos do Master considerados saudáveis estão avaliados em R$ 21,9 bilhões.
No último dia 10, a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), anunciou que um fundo de investimentos apresentou proposta de R$ 15 bilhões para adquirir parte dos ativos do Banco Master que foram incorporados pelo BRB.
Segundo o governo local, a operação ainda depende de aval técnico e regulatório do BC (Banco Central). Em nota, o governo do Distrito Federal declarou que a negociação não envolve uso de recursos públicos nem compromete o caixa do banco, mencionando que o processo “busca preservar os interesses do DF”.
Este texto foi publicado originalmente pela Agência Brasil às 19h57 de 15 de abril de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.


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