
Aval sem ressalvas a balanço financeiro do banco abriu espaço para debate sobre o papel-chave das firmas de verificação em situações como esta
O aval sem ressalvas de auditorias ao balanço financeiro do Banco Master colocou em xeque a atuação dessas firmas de verificação. Ao mesmo tempo, abre espaço para um debate sobre o papel-chave dessas empresas em casos como o da instituição de Daniel Vorcaro.
A advogada Juliana Maia Maciel é mestre em direito processual civil pela USP e sócia do escritório Berardo Lilla. Ela afirma que a responsabilização dos auditores pode vir de diversas formas e se dar “mesmo sem dolo ou má-fé”, em esferas diferentes.
- plano administrativo – “Auditores e firmas de auditoria podem ser sancionados pela CVM quando atuam em entidades reguladas, bem como pelo Banco Central no caso de instituições financeiras e entidades sob sua supervisão. O CFC [Conselho Federal de Contabilidade] e os Conselhos Regionais também podem instaurar processos disciplinares por infração às normas profissionais”;
- plano cível – “Investidores, credores e outros terceiros prejudicados podem buscar indenização se houver nexo entre a falha técnica. Por exemplo: confiança excessiva em informações internas sem validação externa, ausência de procedimentos mínimos esperados e o dano sofrido”;
- responsabilização penal – “O sistema jurídico brasileiro já dispõe de tipos que, em tese, poderiam ser aplicados a auditores em situações extremas, como crimes contra o sistema financeiro, desde que comprovado dolo, isto é, participação consciente ou anuência deliberada na distorção das informações. Essas hipóteses são excepcionais e não se confundem com erro técnico ou negligência, que permanecem no âmbito administrativo e civil”.
LEGISLATIVO
O presidente da CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) do Senado, Renan Calheiros (MDB-AL), anunciou em 15 de janeiro a criação de um grupo especial para acompanhar as investigações relacionadas aos fatos e condutas atribuídas ao Master. Juliana Maciel afirma que esse tipo de iniciativa surge nesse contexto, buscando maior responsabilização dessas empresas. A advogada, entretanto, diz ser necessário ponderar a discussão.
“O desafio, contudo, é calibrar esse debate para evitar a criminalização ampla da atividade e concentrar esforços no fortalecimento de padrões técnicos objetivos, supervisão regulatória consistente e responsabilização proporcional por falhas comprovadas, inclusive com efeitos reputacionais relevantes em um mercado baseado em confiança institucional”, declara.
ALERTA
A KPMG auditou o Banco Master até dezembro de 2024 e chegou a listar R$ 19,56 bilhões em cotas de fundos como um dos “Principais Assuntos de Auditoria”, a categoria de maior risco. Houve o alerta de que esses ativos “não são negociados ativamente” e que sua precificação “está sujeita a um nível mais elevado de incerteza”. A empresa não verificou a existência desses fundos e se as cotas valiam o que estava no balanço.
Em 2025, a PwC (PricewaterhouseCoopers) assumiu o trabalho de auditar. O balanço do 1º semestre do Master não foi publicado. Em 18 de novembro, o BC decretou a liquidação do banco.
Não houve tempo hábil para a publicação do balanço financeiro do ano passado. Depois da liquidação extrajudicial, descobriu-se que parte dos ativos do Master era fictícia. O jornalista Marcio Aith reforçou em reportagem publicada neste jornal digital que não havia “incerteza”, e sim “ativos que não existiam”. Eram “créditos inventados, papéis fabricados”, que contaram com aval de duas grandes auditorias.
“A função de uma auditoria independente não é copiar os números que o cliente fornece e decorá-los com linguagem técnica. É verificar. Conferir. Testar”, acrescentou.
Questionada pelo Poder360, a PwC respondeu: “Por questões de confidencialidade e regras de sigilo profissional, a PwC não está autorizada a comentar temas relacionados aos nossos clientes”.
FATOR DE RISCO
Juliana Maciel afirma que parte do risco envolvendo casos como este “decorre do modelo de auditoria financeira tradicional, que foi concebido para ambientes com ativos relativamente padronizados, registros rastreáveis e mercados minimamente líquidos”.
“Quando aplicado a estruturas com ativos ‘exóticos’ ou de difícil mensuração [direitos não líquidos, créditos/recebíveis complexos, estimativas altamente discricionárias, contrapartes pouco verificáveis], há um descompasso entre o risco econômico e o alcance típico do trabalho. Nesse contexto, além de ‘fazer melhor’, pode ser necessário ‘fazer diferente’ e exigir auditorias reforçadas ou especializadas por classe de ativo/setor”, declarou.
A advogada lista alguns procedimentos para reduzir espaço para que pontos críticos fiquem apenas no declaratório:
- confirmações externas;
- inspeção de documentação primária;
- revisão de premissas e modelos.
O QUE PODE SER FEITO?
Maciel diz ser possível aperfeiçoar as regras vigentes, sem a necessidade de criar normas. Na sua visão, é necessário “tornar mais objetivos e exigíveis os deveres já existentes, especialmente em contextos de maior risco”.
Estão entre os pontos possíveis:
- reduzir a discricionariedade em auditorias de ativos complexos ou ilíquidos, com procedimentos mínimos obrigatórios quando esses ativos forem materialmente relevantes;
- reforçar a supervisão regulatória baseada em risco, com revisões de qualidade mais frequentes e transparentes;
- exigir maior envolvimento de profissionais experientes e governança efetiva do escopo da auditoria.
“O desafio regulatório é calibrar essas melhorias para elevar a qualidade e a accountability [em referência à responsabilidade], sem deslocar a auditoria para um modelo punitivo excessivo que acabe por reduzir sua utilidade econômica”, conclui.
RELATED ARTICLES










Posts recentes
- lacuna de auditorias alerta para responsabilização
- Concurso público da Assembleia tem mais de 38 mil inscritos
- PF colhe novos depoimentos de investigados no caso Master nesta 3ª feira
- Propostas de Amilton Filho convertidas em leis reconhecem importância de ligas acadêmicas e associações sem fins lucrativos
- Mabel amplia isenções do IPTU a mais de 114 mil imóveis
Comentários
Arquivos
- janeiro 2026
- dezembro 2025
- novembro 2025
- outubro 2025
- setembro 2025
- agosto 2025
- julho 2025
- junho 2025
- maio 2025
- abril 2025
- março 2025
- fevereiro 2025
- janeiro 2025
- dezembro 2024
- novembro 2024
- setembro 2024
- agosto 2024
- julho 2024
- junho 2024
- maio 2024
- abril 2024
- março 2024
- fevereiro 2024
- dezembro 2023
- novembro 2023
- outubro 2023
- setembro 2023
- agosto 2023
- julho 2023
- junho 2023
- maio 2023
- abril 2023
- janeiro 2023
- outubro 2022
- setembro 2022
- julho 2022
- junho 2022
- maio 2022
- março 2022
- janeiro 2022
- dezembro 2021
- novembro 2021
- outubro 2021
- setembro 2021
- agosto 2021
- julho 2021
- junho 2021
- maio 2021
- agosto 2020
- julho 2020
- junho 2020
- maio 2020
- abril 2020
- fevereiro 2020
- janeiro 2020
- dezembro 2019
- novembro 2019
- outubro 2019
- setembro 2019
- agosto 2019
- julho 2019
- junho 2019
- maio 2019
- abril 2019
- março 2019
- fevereiro 2019
- janeiro 2019
- dezembro 2018
- novembro 2018
- outubro 2018
- setembro 2018
- agosto 2018
- julho 2018
- junho 2018


