Tribunal questionou a finalidade da solicitação e não respondeu se o telefone é ou era usado por Alexandre de Moraes
O Supremo Tribunal Federal quer que a CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) do INSS explique a finalidade do pedido de informações sobre as conversas de um contato ligado ao tribunal nos registros do celular de Daniel Vorcaro, fundador do Master. Em ofício assinado na 2ª feira (23.mar.2026), a Corte não respondeu se o telefone pertence ao ministro Alexandre de Moraes.
“Não obstante, pede-se licença para consignar que a adequada apreciação da solicitação formulada demanda melhor delimitação de sua finalidade e de seu alcance, porquanto, a depender do objeto visado por essa Comissão, poderá a matéria não se inserir na esfera de atribuições desta Diretoria-Geral, hipótese em que sua apreciação deverá ser submetida à Presidência deste Supremo Tribunal Federal”, escreveu a Diretoria-geral da Corte.
O ofício afirma que o STF reconhece a “relevância constitucional” da CPMI e que está à “disposição” para auxiliar os trabalhos de investigação, mas exige um esclarecimento sobre o pedido da comissão.
ENTENDA
O senador e presidente da CPMI do INSS, Carlos Viana (Podemos-MG), enviou um ofício (íntegra – PDF – 185 kB) em 19 de março, solicitando que o STF informasse “no prazo de 2 (dois) dias úteis” quais foram “os usuários dos últimos 5 (cinco) anos (janeiro de 2021 até a data do presente ofício)” do número de celular identificado como destinatário das mensagens do ex-banqueiro.
O prazo se encerrou na 2ª feira (23.mar). No mesmo dia, Viana afirmou que iria oficiar o presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, para saber quem usava o número contatado por Daniel Vorcaro no dia em que o fundador do Banco Master foi preso.
Vorcaro mandou mensagens via WhatsApp para uma pessoa no dia de sua 1ª prisão, em 17 de novembro de 2025. A CPMI do INSS pediu que o nº do celular desse destinatário fosse identificado pelo Sittel (Sistema de Investigação de Registros Telefônicos e Telemáticos). A resposta foi que o telefone era do Supremo Tribunal Federal. O Poder360 sabe qual é o número checado e verificou que esse celular foi usado pelo ministro Alexandre de Moraes durante vários anos, inclusive em conversas com jornalistas no período em que o fundador do Banco Master foi preso.
Moraes negou que tenha recebido tais mensagens.
Em 16 de março, Viana disse em entrevista ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura, que o colegiado teve acesso aos dados do celular de Vorcaro e confirmou que o número para o qual o agora ex-banqueiro enviou uma mensagem no dia de sua prisão era de um aparelho funcional do STF. O senador chegou a dizer que o dispositivo era de Moraes, mas depois passou a falar que era do Supremo. Questionado sobre como ele sabia da informação, o senador não explicou.
Em 19 de março, o senador fez uma publicação (íntegra – PDF – 5 MB) na qual afirmou que a informação havia sido obtida a partir de um questionamento feito a empresas de telefonia por meio do Sittel.
Segundo a jornalista Malu Gaspar, o ex-banqueiro e o ministro trocaram mensagens no dia em que ele foi preso pela 1ª vez pela Polícia Federal, em 17 de novembro de 2025. A prisão se deu à noite, quando Vorcaro se preparava para sair do Brasil. De acordo com a reportagem, o empresário perguntou em uma mensagem se o interlocutor tinha alguma novidade e se tinha conseguido “bloquear”.
Em nota divulgada (íntegra – PDF – 6 MB) por meio da Secretaria de Comunicação do STF em 6 de março, o ministro reiterou não ter sido o destinatário.
PRÓXIMOS PASSOS
O mais provável é que o STF rejeite o pedido de informação à CPMI do INSS sobre quem usava o telefone que recebeu mensagens de Vorcaro em 17 de novembro de 2025. A Corte deve alegar que a informação violaria a privacidade dos magistrados. Como o Supremo é a última Instância da Justiça no Brasil, a CPMI não terá a quem recorrer.
Vorcaro está preso e em processo de fazer uma delação premiada. Mesmo que ele venha a confirmar que as mensagens que enviou foram para Alexandre de Moraes, ainda será a palavra do ex-banqueiro contra a do ministro do STF. A rigor, só é possível saber se a mensagem saiu de um aparelho e, de fato, chegou ao outro se os 2 celulares forem periciados –e se estiverem íntegros, sem o conteúdo apagado.
A chance de a CPMI conseguir obter o celular de Moraes para fazer uma perícia é nula. Já está claro dentro do STF que os ministros têm tomado atitudes de autopreservação. Na última semana, Moraes foi homenageado pelo decano Gilmar Mendes, que chegou a ficar com voz embargada ao elogiar o colega e dizer que o Brasil tem uma “dívida” com ele.
O senador Vanderlan Cardoso (PSD-GO) assinou, nesta terça-feira (13/1), requerimento de autoria do deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) que pede a criação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para apurar o caso do Banco Master. A iniciativa busca consolidar uma investigação ampla sobre as possíveis irregularidades e as relações do grupo controlador com autoridades.
Em publicação nas redes sociais, Vanderlan justificou o apoio à CPMI pela necessidade de transparência total e responsabilização dos envolvidos.
“Acabei de assinar, pouco tempo atrás, mais uma CPMI, do Banco Master, que está essa polêmica toda. Bilhões de reais foram envolvidos em desvios, em falcatruas no Banco Master”, declarou o senador goiano.
O parlamentar disse ainda que já havia assinado outro requerimento a pedido do deputado Marcel van Hattem e garantiu empenho contínuo no caso.
“Quantas vierem, desse caso, eu vou assinar”, assegurou.
Segundo Vanderlan, a comissão, se instalada, precisa aprofundar as apurações para alcançar todas as possíveis conexões políticas e judiciais vinculadas ao banco e ao seu controlador.
“Tem que investigar governo, STF e todos os políticos que estiverem envolvidos, quem tiver problema, quem tiver culpa no cartório que vá pagar. Ninguém faz isso sozinho”, acrescentou Vanderlan.
O senador concluiu reafirmando a intenção de que a investigação exponha os responsáveis e traga respostas à sociedade.
“Vamos saber quem está participando disso, quem participou e continua participando. A gente tem que passar esse Brasilzão a limpo”, finalizou.
A movimentação por assinaturas para instalar a CPMI ganhou força nas últimas semanas no Congresso, com deputados e senadores se posicionando a favor da criação do colegiado para investigar o rombo e eventuais ligações políticas. Parlamentares que apoiam a investigação dizem que a comissão é um instrumento necessário para esclarecer a dimensão dos prejuízos e possíveis responsabilizações.
Rombo bilionário e ligações com políticos e juízes
O escândalo do Banco Master estourou depois que o Banco Central decretou a liquidação da instituição em novembro de 2025. Relatórios do BC e apurações de imprensa apontam um rombo que pode chegar a R$ 20 bilhões e expôs operações suspeitas em carteiras de crédito e levou à paralisação dos serviços do banco.
Desde então, a Polícia Federal e outras autoridades ampliaram as investigações: houve prisões e mandados de busca e apreensão contra o controlador Daniel Vorcaro e outros executivos, apreensão de celulares e bloqueio/sequestro de bens e valores (bloqueios reportados na casa de bilhões), além de medidas judiciais em curso. Vorcaro chegou a ser preso e liberado com monitoramento eletrônico; agora a operação entrou em nova fase com foco em fraudes, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
O caso ganhou dimensão política e institucional: investigações e decisões envolveram órgãos como o Banco Central, o TCU e o STF, e levantaram questionamentos sobre relações entre o grupo controlador e políticos e magistrados. Reportagens relatam pedidos de busca que passaram pelo STF e debates sobre eventuais influências políticas no desenrolar do caso, motivo pelo qual a apuração também mira possíveis contatos e favorecimentos.



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