A intensificação do confronto entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, e retaliações, amplia incertezas sobre fluxos de comércio e preços de energia, com reflexos diretos e indiretos para o Brasil
A intensificação do confronto entre Estados Unidos e Israel contra o Irã amplia as incertezas sobre fluxos de comércio e preços de energia. O movimento pode ter reflexos diretos e indiretos para o Brasil, inclusive com risco de frear a queda dos juros.
A ofensiva e as retaliações no Golfo atingem rotas estratégicas de petróleo e mercados relevantes para o agronegócio brasileiro, setor que concentra a maior parte das exportações nacionais à região.
Bahrein, Qatar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Jordânia foram bombardeados em retaliação aos ataques norte-americanos ao Irã. Esses países concentram parte relevante das exportações brasileiras de commodities e influenciam o preço internacional do petróleo —variável central para inflação, câmbio e juros.
Exportações e agronegócio
Dados do Comex Stat indicam que o Brasil exportou cerca de US$ 3 bilhões ao Irã em 2025. Desse total, US$ 2,5 bilhões (83,3%) foram produtos do agronegócio.
Entre os itens agrícolas, o milho respondeu por 79,3% e a soja por 22,5%.
Os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita também figuram entre destinos relevantes, com US$ 3,1 bilhões e US$ 4,8 bilhões em exportações brasileiras, respectivamente.
Risco para petróleo e juros
O ex-secretário de Comércio Exterior do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), Welber Barral, afirmou que o impacto dependerá da eventual expansão do conflito. Segundo ele, já há atrasos em cargas aéreas e preocupação com o Estreito de Ormuz.
“Esses países são grandes importadores de commodities agrícolas, principalmente do Brasil. Mesmo o Irã, que já importa bastante, ainda tem comércio que passa por Omã e Emirados”, disse.
O advogado tributarista Luís Garcia, sócio do Tax Group, afirmou que o 1º efeito é a dificuldade de planejamento comercial no curto prazo. Segundo ele, o controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz pressiona o fluxo global de petróleo e tende a elevar prêmios de risco.
“O petróleo já subiu mais de 8% e isso tem impacto direto na inflação dos países”, declarou. Para ele, o barril pode se aproximar de US$ 100 em caso de escalada regional, o que pressionaria o dólar e ampliaria custos de energia e frete.
Garcia disse que o Brasil tem relação comercial limitada com o Irã no setor industrial, mas é sensível ao preço do petróleo. “Com pressão inflacionária, você segura a queda da taxa de juros. Pode afetar, inclusive, a decisão da próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária)”, afirmou.
O impasse ocorre em momento de tentativa de redução gradual da Selic. Caso a alta do petróleo e do dólar se consolide, o Banco Central do Brasil pode manter os juros elevados por mais tempo, com impacto sobre a atividade econômica e o custo do crédito.
Para exportadores de petróleo, como a Petrobras, há ganho de receita. O efeito líquido para a economia, no entanto, tende a ser inflacionário.
Logística e cadeias globais
A instabilidade no Golfo também encarece seguros marítimos e reorganiza rotas portuárias e conexões internacionais. Companhias têm evitado hubs como Dubai, Doha e Abu Dhabi.
Tensões envolvendo Dubai podem comprometer arranjos operacionais usados para comércio e pagamentos internacionais, elevando incerteza e custos de transação.
O presidente da Federação da Indústria do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe, afirmou que a indústria brasileira está inserida em cadeias globais e que instabilidades em rotas estratégicas repercutem em fretes, seguros e energia.
“O acompanhamento atento do cenário internacional é fundamental para mitigar riscos e preservar a competitividade das empresas”, declarou.



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